A trajetória de Ayres Rocha deixa um legado de profissionalismo, serenidade e dedicação

Morreu o jornalista e apresentador José Ayres de Souza Rocha, aos 62 anos, um dos nomes mais icônicos da comunicação no Acre. Notabilizado por sua voz inconfundível e pelo tom humano na condução dos fatos, o comunicador marcou época ao longo de mais de três décadas à frente do Jornal do Acre 2ª Edição (JAC2), na Rede Amazônica.
Ayres Rocha havia retornado a Rio Branco há cerca de um mês, após passar por tratamento contra um câncer em João Pessoa, na Paraíba. A decisão de voltar à capital acreana foi motivada pelo desejo de ficar perto dos familiares e da cidade onde construiu sua trajetória profissional e pessoal.
Em entrevista ao g1 e à Rede Amazônica, a irmã do comunicador, Elaina Rocha, contou que a ligação de Ayres com o Acre foi determinante para a escolha de voltar para casa durante o período de tratamento. “Ele veio para cá porque ama a cidade dele, porque ele queria ficar perto da gente”, relatou.
Segundo Elaina, o jornalista passou os últimos dias cercado pelo carinho dos familiares. Ele permaneceu acompanhado pelos parentes no hospital até a noite anterior à morte, quando ainda demonstrava seu bom humor e interagia com a família por meio de gestos, fazendo brincadeiras e piadas.
A carreira
Nascido em Rio Branco em 6 de novembro de 1963, Ayres construiu uma trajetória única que se confundiu com a própria evolução da televisão no estado. Ao longo de sua carreira, deu mais de 6 mil “boa noite” aos telespectadores, tornando-se figura presença constante na rotina das famílias acreanas de segunda-feira a sábado.
O ingresso de Ayres Rocha no jornalismo ocorreu no final da década de 1980 de maneira despretensiosa. Em 1988, enquanto trabalhava como bancário no período matutino, buscou uma oportunidade para preencher o tempo livre no turno da tarde. Ingressou na antiga TV Acre — retransmissora da Rede Globo —, onde passou meses observando a rotina da redação para compreender a engrenagem do veículo.
Sua estreia diante das câmeras ocorreu por um imprevisto: diante da ausência do apresentador do bloco de esportes em um determinado dia, aceitou o convite da chefia e encarou o desafio no estúdio. O bom desempenho consolidou sua permanência na emissora.
Naquela época, o telejornalismo regional enfrentava escassez de recursos tecnológicos. Sem a presença de computadores e de teleprompter (TP) digital, a leitura das notícias era viabilizada por um sistema artesanal com espelhos e câmeras auxiliares que refletiam o roteiro impresso.
A partir de 1990, Ayres tornou-se editor e apresentador titular dos telejornais da emissora. Com o lançamento do Jornal do Acre 2ª Edição em 1995 — o primeiro telejornal da Rede Amazônica no estado —, assumiu a bancada onde permaneceria por décadas, tornando-se o profissional com mais tempo contínuo no ar em um programa diário na televisão acreana.
Ao longo dos anos, esteve à frente das principais coberturas do estado, como a tragédia do acidente aéreo em Manoel Urbano. Ele também acompanhou as transformações da linguagem televisiva, migrando da postura estática no estúdio para apresentações dinâmicas.
Mesmo com a carreira consolidada e o reconhecimento do público, Ayres fez questão de prestar vestibular e graduou-se em Jornalismo pelo Instituto de Ensino Superior do Acre (Iesacre), compartilhando a sala de aula com colegas e professores que o tinham como referência profissional.
A trajetória de Ayres Rocha deixa um legado de profissionalismo, serenidade e dedicação à informação para a imprensa do Acre e de toda a Região Norte