Cruzeiro do Sul, Acre, 10 de março de 2026 03:55

“A água triscou no meu pé e eu disse: essa água tá um pouco quente”, relata pai de bebê que sofreu queimaduras em maternidade de Cruzeiro do Sul

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Um relato de possível negligência médica veio à tona na tarde deste domingo (22), em Cruzeiro do Sul, no Acre. Marcos Silva Oliveira, pai da recém-nascida Aurora Maria Oliveira Mesquita, denunciou que sua filha sofreu queimaduras graves nas pernas durante o primeiro banho na maternidade da cidade. O caso, rapidamente, gerou forte comoção nas redes sociais e revolta popular.

O episódio teria ocorrido na manhã deste domingo (22), um dia após o nascimento da bebê. Segundo o pai, ao perceber que a água utilizada para o banho estava quente demais, alertou a profissional responsável, mas nenhuma providência foi tomada.

“Na primeira criança, o pai da primeira criança pegou e disse: ‘essa água tá muito quente’. Aí também ela [a enfermeira] não falou nada. Aí nisso eu tava segurando a baciazinha lá, e tava furada. Eu segurei pra não derramar, que tava pingando água. Aí eu trisco no meu pé embaixo e eu disse: ‘essa água tá um pouco quente’. Ela também não falou nada.”

Apesar dos dois alertas, o procedimento seguiu normalmente. Ainda de acordo com Marcos, a enfermeira trocou de banheira e pegou água diretamente do chuveiro, colocando em seguida a recém-nascida Aurora dentro da banheira. O resultado foi imediato: a bebê chorou intensamente e chegou a defecar de dor.

“Aí pegou água direto do chuveiro, jogou na banheira e já foi direto… Pegou a neném e já jogou dentro. Então eu vi de tudo aí, a neném chorando. Até porque a neném fez até cocô na hora que triscou os pés na água, de tanta dor. Aí ela jogou água, jogou um pouco, limpou. Os pezinhos dela ficou um pouco dentro, mais do que o resto do corpo, né? Ficou dentro. Aí quando ela levantou, já foi saindo o couro da perninha dela, já tava vermelho.”

A partir dali, começou a corrida da família para tentar atendimento adequado. Marcos relata que procurou a pediatra e as profissionais que haviam feito o procedimento, mas não encontrou ninguém.

“Aí eu falei pra ela que eu queria ver a pediatra e ela disse que era normal, essa secreção. Ela saiu depois que tinha dado banho na outra criança. Aí eu fui atrás da enfermeira, da pediatrazinha dela, que tava aqui, que tinha dado alta pra nós. Já tava com os papéis tudinho. Aí não encontrei ninguém, nem a moça que tinha dado banho, não vi mais ela.”

A situação se agravou quando, segundo o pai, tentaram atribuir as lesões da recém-nascida a uma possível doença de pele, o que ele contesta.

“Falaram que podia ser uma doença. Mas se fosse doença, o corpinho dela todo era pra estar desse jeito aí. Mas o pezinho dela, tem no vídeo aí, o pezinho dela dentro da banheira passou mais tempo e só aconteceu nas partes onde ficou mais tempo na água. Depois que ela jogou na bacia, entendeu? Ela só pegou do chuveiro e jogou a neném dentro.”

Aurora só recebeu um curativo adequado horas depois, por volta das 15h. O pai registrou um boletim de ocorrência na delegacia civil e acionou a Polícia Militar. A criança deverá ser transferida às pressas para a capital, Rio Branco, para receber atendimento especializado.

“Vieram fazer um curativo que preste na minha filha, já era por volta das três, três horas da tarde. Eu já fui na delegacia também, já fiz BO na delegacia civil, liguei pra Polícia Militar, já vieram aqui, já deixaram até eles ali na porta. Conversei com eles lá na porta. Eu queria só que mais nenhuma criança passasse por isso, e nenhum pai, porque ninguém merece, ninguém merece. Até o tratamento aqui dela com a gente não foi do bom. Quem estava no quarto viu, com todo mundo do quarto aqui, ela dando banho. Deus me livre, a gente tem que ter mais empatia pelo outro.”

O caso de Aurora é o segundo episódio em pouco mais de um mês envolvendo denúncias de negligência médica na maternidade de Cruzeiro do Sul. No mês anterior, uma gestante de sete meses e seu bebê morreram durante o parto na mesma unidade. Este também é o terceiro caso recente no Acre, se somado à morte de um adolescente em Feijó, após complicações de uma infecção não tratada adequadamente.

A população aguarda que, diante da gravidade dos casos, o Ministério Público abra uma investigação rigorosa e que medidas sejam tomadas para corrigir falhas graves no sistema de saúde pública do estado.