A governadora não precisou abandonar sua fé para respeitar a diversidade

Durante boa parte do governo Gladson Cameli, construíram em torno de Mailza Assis uma espécie de personagem que pouco tinha a ver com a mulher que hoje ocupa o Palácio Rio Branco.
Diziam que, por ser evangélica fervorosa, Mailza seria contra a comunidade LGBTQIA+. Espalhavam que os gays não teriam vez em seu governo, que ela seria hostil à diversidade e que sua fé seria usada para excluir quem pensa, ama ou vive de maneira diferente.
Fizeram a caveira dela.
Pois bem. O tempo, que é um excelente contador da verdade, resolveu apresentar a conta.
E muita gente teve que morder a língua.
Uma das primeiras demonstrações veio justamente de onde muitos jamais esperariam: Mailza abriu espaço e fortaleceu Germano Marino, presidente da Associação dos Homossexuais do Acre e uma das lideranças mais conhecidas da comunidade LGBTQIA+ no Estado e no país. Germano, historicamente ligado aos movimentos de esquerda, passou a integrar a equipe da governadora e se tornou um dos seus assessores mais próximos e leais.
Neste domingo, durante a 20ª Parada LGBTQIA+, que reuniu grande público, Germano agradeceu a governadora pelo apoio. Foi um discurso bonito, emocionante. Fazia alguns anos que essa comunidade não tinha tanto apoio.
A política, às vezes, tem dessas ironias.
Quem imaginava um governo de portas fechadas encontrou portas abertas.
Quem esperava intolerância encontrou diálogo.
E quem apostava que a fé de Mailza seria sinônimo de exclusão descobriu que uma coisa não precisa necessariamente anular a outra: ela pode professar sua fé e, ao mesmo tempo, respeitar quem professa outra maneira de enxergar a vida.
Depois veio outro movimento político de enorme significado: o convite à médica Jéssica Sales para compor sua chapa.
Jéssica entrou na campanha com força, entusiasmo e uma capacidade de mobilização que ninguém pode ignorar. E a candidatura de Mailza ganhou musculatura.
Mas foi neste domingo que a imagem falou mais alto do que qualquer discurso.
O Palácio Rio Branco estava colorido com as cores do arco-íris, depois de já ter recebido a programação da Semana da Diversidade. Rio Branco viveu dias de intensa mobilização da comunidade LGBTQIA+, e a grande festa da diversidade levou cor, música e gente para as ruas do centro da capital.
E Mailza estava ali.
Mais do que isso: o Governo participou, ao lado de outras instituições, da estrutura que tornou possível a realização da festa.
Pode parecer apenas um detalhe para alguns. Não é.
Para uma comunidade que muitas vezes se sentiu invisível, ser reconhecida pelo poder público tem significado.
E há uma ironia ainda maior nessa história.
Durante anos, tentaram convencer o público LGBTQIA+ de que Mailza seria uma ameaça aos seus direitos. No entanto, foi justamente sob sua gestão que a comunidade voltou a encontrar uma estrutura pública capaz de acolher uma grande celebração da diversidade, depois de a Parada do Orgulho LGBTQIA+ não ter sido realizada no ano passado por falta de estrutura.
A memória política do Acre registra períodos em que o movimento LGBTQIA+ encontrou forte apoio institucional, especialmente durante os governos ligados ao Partido dos Trabalhadores.
Agora, quem esperava que esse apoio desaparecesse com a chegada de Mailza ao governo está descobrindo que a política é muito mais complexa do que os rótulos.
Mailza não precisou abandonar sua fé para respeitar a diversidade.
Não precisou deixar de ser evangélica para compreender que governa para todos.
E talvez essa seja uma das maiores lições que seu governo esteja dando neste momento: governador não governa apenas para quem pensa igual, acredita igual ou vive igual. Governa para todos.
A comunidade LGBTQIA+ ganhou espaço.
Ganhou visibilidade.
Ganhou estrutura.
E ganhou uma governadora que, pelo menos nesse capítulo, fez exatamente o contrário do que seus críticos diziam que ela faria.
Por isso, talvez seja hora de alguns procurarem a língua que passaram tanto tempo preparando para discursos contra Mailza.
Ela pode estar um pouco dolorida.
Porque, desta vez, a realidade tratou de contrariar a profecia.
E no lugar de um governo que excluiria, apareceu um governo que abriu espaço para a diversidade.
Mailza pode até não agradar a todos — nenhum governante consegue essa façanha. Mas, neste episódio, merece reconhecimento.
Parabéns, governadora.

