Foi no artesanato que a comunidade da reserva extrativista Cazumbá-Iracema, no interior do Acre, encontrou não apenas uma forma de renda, mas também um elo de sustentabilidade e identidade coletiva.

Organizados em torno da produção de látex e farinha de mandioca, os moradores transformam o que a floresta oferece em produtos que carregam história, resistência e futuro.
O látex, extraído das seringueiras, conhecidas como árvores sagradas, é moldado em peças artesanais, marcadas pelo cuidado manual e pela memória dos antigos seringueiros.
Criada em 2002 sob esse conceito, a Reserva Extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, situada entre os municípios acreanos de Sena Madureira e Manoel Urbano, abrange mais de 754 mil hectares de floresta ombrófila (ou floresta pluvial) — um tipo de vegetação tropical dependente de altos índices de chuva e ausência de estação seca.
Ao longo de sua trajetória, a unidade de conservação (UC) tem consolidado uma forma singular e transformadora de educação ambiental e sustentabilidade.
Ações articuladas entre o governo federal, por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e o governo do Acre têm garantido iniciativas que promovem cidadania, fortalecem a participação comunitária e criam condições para que o desenvolvimento avance sem comprometer o meio ambiente e o artesanato é uma das atividades que garantem que isso ocorram.

Identidade da reserva
Um desses atores é o artesão Jilberto Maia, morador da Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, que iniciou seu trabalho com o látex em 2003, após participar de um curso de capacitação oferecido pelo Sebrae. Ele explicou que a primeira etapa do curso ocorreu em 2002, mas não pôde participar. “Fiquei curioso. Quando veio a segunda etapa, em 2003, aí sim eu participei”, lembrou.
A partir daí, o artesão não parou mais. “Em setembro daquele ano, já fui para uma feira em Rio Branco. Isso me motivou muito e, de lá pra cá, não parei mais”, afirmou.
Todo o processo é artesanal, que envolve coleta do látex, preparo do leite, mistura com o pó da casca e moldagem manual até chegar ao formato dos animais. O trabalho virou identidade da comunidade.
“A peça mais procurada é a onça-pintada. Apesar de ser a mais difícil de fazer, é a preferida”, disse. Cada onça leva pelo menos 15 dias para secar, antes de passar por lavagem, acabamento, defumação e pintura, etapa que considera a mais complexa.

O artesão relatou que, apesar do esforço físico ser leve, o desgaste mental é grande. “Às vezes dou acabamento em 30 ou 40 peças. Quando termino, me peso e vejo que perdi 2 ou 3 quilos. Fico focado, estressado, só descanso quando termino”, conta.
Ainda assim, garante que o resultado compensa: “Quando vejo a peça pronta, digo: valeu a pena”.
O artesão vende a onça-pintada por R$ 100 e outras espécies por R$ 90. Ele afirma que o artesanato transformou sua relação com o meio ambiente. Antes, derrubava áreas para plantar macaxeira, milho e arroz para vender. Hoje, cultiva apenas para consumo.
“Tenho certeza de que, com esse trabalho, evitei muito desmatamento. O artesanato me apaixonou porque me fez respeitar mais a floresta”, completa.

Arte que nasce das mãos delas
A artesã Francisca Moura Maia, que atua há mais de 15 anos na produção de peças feitas a partir do látex, contou que aprendeu a técnica nas oficinas promovidas pelo Sebrae. A capacitação foi o ponto de partida para a formação de um grupo de mulheres da comunidade, que segue unido até hoje.
“Depois das oficinas, nós nos organizamos e formamos um grupo de mulheres. Desde então, seguimos trabalhando juntas”, afirma.
As peças produzidas pelas artesãs da Cazumbá se tornaram a marca da reserva. São suplas em formato de folhas, moldadas em látex e feitas inteiramente à mão por mulheres que transformaram o artesanato em uma das vertentes mais fortes da bioeconomia dentro da unidade de conservação.
Francisca explicou que a produção é realizada principalmente por encomenda, mas também atende visitantes que chegam ao centro comunitário. Ela diz que o artesanato representa uma fonte de renda sustentável e alinhada à preservação ambiental.
“Essa arte é muito importante, porque permite tirar uma renda sem prejudicar a floresta e garante um futuro melhor”, disse.

O grupo, formado por sete mulheres, trabalha de forma colaborativa. Não há divisão fixa, pois todas dominam todas as etapas.
Para evitar acúmulo de pessoas em um único espaço, elas adotaram um sistema de revezamento. “Uma semana trabalhamos na casa de uma família, outra semana na casa de outra”, explicou.
O espaço onde ocorre esse trabalho é o Centro de Artesanato Cazumbarte, inaugurado em 2019, com o apoio do governo do Acre, pois a Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema é reconhecida como referência em inclusão social aliada à conservação ambiental.
Francisca afirmou que o grupo está empenhado em retomar as atividades do centro e fortalecer a produção. Ela pretende continuar no artesanato enquanto tiver condições.
“É quase uma terapia: a gente conversa, brinca, trabalha juntas”, relatou. Cada peça leva cerca de dois dias para ser concluída, um para iniciar a modelagem e outro para finalizar, antes de passar pelo corte das bordas e pela secagem.

Guardiãs da técnica e da floresta
Joice Maia, que trabalha como artesã há cerca de oito anos, contou que aprendeu o ofício nas oficinas promovidas pelo Sebrae e também com a irmã, uma das pioneiras na produção artesanal da Cazumbá.
“Ela começou há mais 25 anos, fazendo peças como mantas e bolsas. Depois fomos evoluindo para o estilo que fazemos hoje”, explica.
Joice relatou que o grupo de mulheres da comunidade se organiza todos os anos para a produção, seguindo um cronograma por família. No momento, aguardam a chegada de um insumo para retomar o trabalho. Para ela, o artesanato não garante apenas a renda.
“É uma terapia. Eu amo fazer isso”, afirmou. Apesar do reconhecimento maior fora do estado, ela observa que, localmente, o valor do trabalho nem sempre é compreendido.
O processo até uma peça totalmente pronta passa por coleta do leite da seringa, aquecimento, descanso, mistura com pigmento e formação da massa. Em seguida, o material é aplicado na forma em camadas, geralmente cinco, com secagem ao sol entre cada uma.
Depois de desmoldar, a peça passa por nova secagem, acabamento, lavagem e colocação de etiquetas. “Se não seguir todo o processo, a peça pode mofar”, alerta. O tempo total de secagem varia de três a quatro dias.
Os preços variam entre R$ 20 e R$ 50, dependendo do tamanho. Algumas lojas de Rio Branco revendem as peças, enviadas pela irmã de Joice, mas na comunidade a venda é direta, sem atravessadores.

Para a artesã, o trabalho é também uma forma de conservar a floresta.
“A gente vai para a mata, tira o leite, mas não desmata, não destrói a natureza”, disse. A renda, no entanto, é complementar, já que a produção depende do clima. O período mais produtivo vai de junho a novembro.
Hoje, o grupo conta com cinco mulheres. A irmã de Joice trabalha em outra colocação, onde há mais estradas de seringa e maior facilidade para coleta. Na área onde Joice vive, as estradas são antigas e menos produtivas.
Ela lembra que, antes da construção do centro de artesanato, o grupo trabalhava em uma pequena casa de barro. “Agora temos um lugar estruturado, com cozinha, banheiro, tudo direitinho. Dá para passar o dia aqui trabalhando. É um espaço muito bom para a gente se organizar e continuar produzindo”, afirmou.

Arte na vitrine
A coordenadora estadual do artesanato acreano, Risoleta Queiroz, destacou a importância da produção artesanal da Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema para o setor no estado. Ela define a reserva como uma referência pela qualidade e originalidade das peças.
“A Cazumbá é maravilhosa. Eles trabalham conosco há muito tempo, e as peças deles são muito procuradas”, disse.
Risoleta lembrou que artesãs da comunidade já participaram de feiras nacionais e a produção costuma ter grande saída na Casa do Artesão, mas, no momento, o estoque está zerado devido ao período de entressafra.
“Estamos sem peças por causa da época de produção. Eles realmente não têm como produzir agora”, explicou.
A coordenadora ressaltou que o governo do Acre tem dado apoio constante ao grupo, incluindo a emissão de carteiras de artesão e ações de incentivo. Ela citou ainda o trabalho de Jilberto Miranda, conhecido pelas esculturas de látex em formato de animais. “O seu Jilberto faz peças maravilhosas e que são muito procuradas”, afirmou.
Risoleta disse que a expectativa é de alta demanda nas próximas feiras, como a Expoacre Juruá, onde tradicionalmente as peças da Cazumbá têm grande procura.

Comunidade em movimento
O presidente da Associação dos Seringueiros do Seringal Cazumbá (Assc), Aldeci Maia, conhecido como Nenzinho, destacou que o trabalho de organização comunitária na reserva é movido por voluntariado e compromisso coletivo.
Ele frisa que atuar pela comunidade é um gesto de doação. “Quando você vê alguém trabalhando nisso, está vendo um trabalho de vontade de melhorar o mundo ao redor.”
Nenzinho explicou que a criação dos núcleos de base não foi motivada por vaidade pessoal, mas pela compreensão de que a organização comunitária gera benefícios para todos. Ele afirmou que, mesmo diante de perdas ao longo do caminho, o saldo é positivo. “Quando a comunidade inteira avança, eu também avanço”, declarou.

Os prêmios, explica, que recebeu ao longo da vida representam o esforço coletivo da reserva.
“O meu nome estava lá, mas por trás havia um povo inteiro. O Nenzinho sozinho não iria a lugar nenhum”, afirmou, reforçando que seu papel sempre foi o de representar uma comunidade que buscava mudança e melhores condições de vida.
Atualmente, a Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema conta com 19 escolas, sendo 13 dentro dos núcleos de base. A gestão é compartilhada entre a associação concessionária e o ICMBio, que, segundo ele, é o principal parceiro da comunidade.
“Sem o ICMBio, a associação não teria pernas para chegar a todas as comunidades”, afirmou. Para Nenzinho, a parceria funciona porque há diálogo e compreensão mútua.
Ele reforçou que o ICMBio tem papel essencial na articulação das políticas públicas dentro da reserva, especialmente diante das dificuldades de acesso.
“É a primeira vez que o estado traz uma política como essa para dentro da reserva, e isso só acontece porque o ICMBio facilita o caminho”, disse.

Ciência comunitária
“Eu nasci e me criei aqui no Cazumbá. Tenho 27 anos”, conta Márcio Maia da Silva, integrante do projeto de monitoramento da Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema. Ele lembra que a iniciativa começou em 2009, fruto de um estudo acadêmico que acabou transformado em projeto pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ).
O grupo, relembra Silva, já chegou a ter mais de 20 monitores, mas hoje são oito, distribuídos em diferentes áreas da reserva. “Fazemos rodízio para que todos participem e entendam o que é pesquisa e monitoramento”, explica.
No início, houve resistência porque os moradores achavam que a pesquisa iria atrapalhar a caça de subsistência, mas esse nunca foi o objetivo. O trabalho, na verdade, busca identificar aves, mamíferos e borboletas, importantes indicadoras de mudanças climáticas e de abertura de áreas.
O monitoramento segue um calendário rigoroso, com coletas quinzenais e relatórios enviados a pesquisadores. Os resultados retornam à comunidade a cada cinco anos, no Encontro dos Saberes.
“A gente sabe que esse trabalho só continua porque a comunidade assumiu a responsabilidade. Se dependesse apenas de trazer gente de fora, não funcionaria”, reforça. Nosso trabalho é oficial, permitido, e seguimos firmes, mesmo com as dificuldades”, reforça, com a convicção de que ciência e comunidade caminham juntas na defesa da floresta.










































