
Por Roraima Rocha*
No Acre, mulher no poder ainda provoca um fenômeno curioso. Quando ela obedece, chamam de sensata. Quando decide, chamam de arrogante. Quando ouve, dizem que é fraca. Quando se impõe, logo aparece um coral de iluminados para insinuar que alguém fala por ela. É a velha miséria política com ar de modernidade. Agora vem em postagem, comentário, áudio vazado e militância de ocasião. O nome disso não é debate. O nome disso é tentativa de deslegitimação. E, no caso de Mailza Assis, o roteiro parece mais do que espontâneo. O quadro sugere uma pressão articulada para esvaziar, desde o primeiro minuto, a autoridade de quem acaba de assumir o Executivo estadual.
Mailza não caiu de paraquedas no Palácio Rio Branco nem brotou de um acidente administrativo. Sua trajetória não começou ontem, nem nasceu de favor masculino, como gostam de insinuar os analistas de rede social que estudaram ciência política na universidade do achismo. Ela iniciou a vida pública em Senador Guiomard, passou pela gestão municipal, foi eleita primeira suplente de Gladson Cameli em 2014, assumiu o Senado em 2019 com a eleição dele ao governo, tornou-se vice-governadora em 2023 e, em 2 de abril de 2026, assumiu o comando do Estado, tornando-se a segunda mulher em mais de seis décadas a chefiar o Executivo acreano. Alguém lembra que foi ela que “bancou” a candidatura de Bocalom a prefeito em 2020, contra tudo e contra todos? Pode-se gostar não dela, pode-se discordar dela, pode-se até combatê-la politicamente. O que não se pode fazer, sem desonestidade intelectual, é fingir que se trata de uma figura sem percurso, sem densidade e sem lastro próprio.
Eis então que mal assumiu o governo e Mailza já se viu no centro de uma nova ofensiva, agora em torno da vaga aberta no Tribunal de Contas do Estado após a aposentadoria de Valmir Ribeiro. O TCE homologou em 7 de abril a lista tríplice composta por Anna Helena de Azevedo Lima Simão, Mário Sérgio Neri de Oliveira e Sérgio Cunha Mendonça, cabendo agora à chefe do Executivo fazer a escolha. Até aí, normalidade institucional. O problema começou quando a disputa pelo convencimento resolveu abandonar a compostura e flertar com o constrangimento público como método. O áudio vazado, convocando mobilização para cobrar a governadora e pressionar sua decisão, não é um detalhe lateral. É um sintoma.
Convém deixar uma coisa bem assentada para que os histéricos profissionais não rasguem as vestes antes da hora. Defender o nome de Anna Helena é legítimo. Absolutamente legítimo. Ela tem currículo, trajetória e atributos reconhecidos publicamente. O ponto não é esse. O ponto é o método. Quando uma causa justa precisa recorrer a cerco moral, intimidação velada e patrulhamento emocional, algo apodreceu no caminho. E quando esse constrangimento vem embrulhado no slogan “precisamos de uma mulher”, a contradição fica quase cômica. Porque, nesse caso, a defesa da mulher no cargo passa pela tentativa de subjugar outra mulher que, por imposição constitucional, tem a prerrogativa de decidir. A bandeira continua bonita. O mastro é que entortou.
A Constituição, essa senhora tão invocada em discursos e tão desprezada nas conveniências, não transformou governador em carimbador de pressões setoriais. A separação e a independência entre os Poderes são fundamentos da organização do Estado brasileiro. A escolha pode e deve ser debatida, criticada, disputada politicamente. O que não se pode normalizar é a conversão da prerrogativa constitucional da chefe do Executivo em teste de submissão a grupos externos. República não é assembleia de condomínio emocional. Governo não é mesa de bar com chantagem moral servida em copo americano.
E o aspecto mais irônico, para não dizer hipócrita, é que todo esse súbito fervor em nome da mulher no poder parece ter memória seletiva. O próprio governo acreano vem ampliando, há anos, a presença feminina em postos centrais da administração. Levantamento oficial apontou 17 de 49 secretarias e autarquias comandadas por mulheres, o equivalente a 33,33% da gestão estadual, colocando o Acre entre os estados com maior presença feminina em cargos de liderança. Não se trata de uma mulher isolada numa fotografia de propaganda. Trata-se de um ambiente institucional em que mulheres passaram a ocupar espaços de comando real. Corregedoria, Procuradoria, Secom, Detran, Procon, Fundhacre, Iteracre, Seasdh, Semulher, Deracre, Ageac e tantos outros espaços demonstram que não estamos diante de um enfeite de vitrine, mas de um processo político e administrativo concreto.
Por isso a tentativa de reduzir Mailza à caricatura de mulher tutelada é não apenas injusta, mas intelectualmente preguiçosa. Sua biografia política desmente essa narrativa. Foi assim quando se colocou na suplência em 2014. Foi assim quando consolidou seu espaço institucional em Brasília. Foi assim quando assumiu áreas sensíveis da gestão social. E é assim agora, quando ocupa o maior cargo do Estado sob o olhar desconfiado de adversários, opositores e até de militantes que, em tese, deveriam ser os primeiros a compreender o que significa uma mulher ser tratada como incapaz de decidir sem autorização coletiva.
A esta altura, o que se vê é menos uma disputa por uma cadeira e mais uma operação para gastar a tinta da caneta de Mailza antes mesmo de ela secar no papel. Uns atacam por cálculo eleitoral. Outros ainda por aquele vício nacional de achar que autoridade feminina só é aceitável quando coincide com a própria vontade. O resultado é uma espécie de orquestra da deslegitimação. Cada um toca seu instrumento, uns no ataque rasteiro, outros na pressão travestida de virtude, outros no comentário covarde de internet. E todos contribuem para a mesma sinfonia vulgar: a de tentar convencer o público de que a governadora pode ocupar a cadeira, mas não deve usufruir plenamente da autoridade que a cadeira lhe confere.
Quem conhece um pouco da política real, não a de rede social, sabe que Mailza sempre respondeu melhor ao diálogo do que ao ultimato. Conversa, argumento e construção costumam render mais do que coação pública. A pressão, nesse caso, não a fortalece nem fortalece a postulante defendida. Apenas rebaixa o debate e expõe uma ansiedade de mando que, curiosamente, nunca se exibiu com a mesma desenvoltura quando havia um homem na chefia do Executivo com listas tríplices nas mãos. A igualdade, no Acre e no Brasil, ainda tropeça nisso. Há quem aceite mulher no poder, desde que ela não use o poder.
No fim, a discussão correta não é se Mailza deve escolher A, B ou C. Isso pertence à esfera da decisão política e constitucional dela, que depois será julgada pela história, pela opinião pública e pelo próprio ambiente institucional. A discussão correta é outra, e mais incômoda. Vamos admitir de uma vez que uma mulher pode governar com autonomia ou seguiremos nesse teatro provinciano em que aplaudem sua posse e sabotam sua autoridade no dia seguinte. Porque, se for para entregar a faixa e tomar a caneta, não se está defendendo representatividade feminina. Está-se apenas modernizando o velho machismo com filtro de rede social.
*Advogado; sócio-fundador do escritório MGR – Maia, Gouveia & Rocha Advogados; Mestrando em Legal Studies Emphasis in International Law, pela Must University (EUA), é especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Faculdade Gran e em Advocacia Cível pela Fundação do Ministério Público do Rio Grande do Sul (FMP). Membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos no Conselho Federal da OAB.